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  • Anna Rita S.

10 trampos do último ano muito pesados pro seu machismo.

Atualizado: 4 de Fev de 2019


Depois de uma pesquisa frustrada sobre os maiores álbuns de rap do ultimo ano, me pareceu obvio a falta de representatividade feminina (preta) no cenário atual. Então eu resolvi fazer uma lista dos dez trabalhos mais maravilhosos do meio, com artistas nacionais e internacionais, algumas com certo reconhecimento e outras com quase nenhum, mas ainda sim muito talentosas. Eu juntei meus álbuns e EP´s, e faixas favoritas (que você pode achar no Spotify ou Youtube) e criei os 10 trampos muito pesados pro seu machismo.


Sampa the Great – Birds and the BEE9




Sampa the Great é uma artista da Zâmbia muito única e eu a conheci por acaso através de “Blue Boss” e de cara fiquei apaixonada pelas referências em blues, soul e rap, e as influências africanas. Sampa consegue resgatar com sua originalidade e flow viciante, de uma forma simplificada e nada óbvia seu som natal. Já com três álbuns na rua, e um deles lançado no ultimo ano, eu ainda espero muito dela, e eu tenho certeza que ela merece sua atenção. BTB aborda representatividade, relações afro centradas e edificação de identidade da maneira mais didática possível. Minhas faixas preferidas são: "Protect your Queen", "Rhymes to the East" e "Can I Get a Key". Você pode achar ela em qualquer plataforma de streaming, ou no site oficial: sampathegreat.com.

Kmila CDD- Preta Cabulosa



“Preta Cabulosa” foi um dos EP's mais completos lançados no último ano e conseguiu resgatar a agressividade e as linhas objetivas expondo uma perspectiva feminina das milhares de preconceitos enfrentados pela mulher preta no Brasil hoje, violência, a guerra ao tráfico e seus efeitos e a objetificação da raça. Kmila segue quebrando a quarta parede, aproximando qualquer pessoa ao cenário com disposição de ouvir a chuva de papos retos que ela sempre dá, e criando uma obra intima, porém nunca fragilizada. O EP foi produzido pelo Dj Caique, Insane Track e Profelles, e com seu irmão MV Bill na direção musical. As minhas faixas destaques foram: A Faca, Guerra, e Da Licença. Podemos esperar mais projetos tão pesados e significativos como esse.


Ivy Sole- West


Ivy é uma artista da Carolina do Norte, nova na cena e muito coletiva. East e West lançados no ano passado são um retrato do bairro e das ambições dos seus irmãos e de si própria. Ambos são concentrados em uma ideia de manifesto e não vagam tanto em outras áreas. Ivy considera esse trabalho bem leve em relação ao que já foi lançado e quase não foge do clássico boom bap e samples indie. Produzido pela própria, Ethan Tómas e Teddy Walton, o disco tem participação de um amigo de infância local, WES$. Com um discurso de origem bem pesado, eu deixo como sugestão uma obra pouco explorada, mas muito promissora. As minhas faixas favoritas são: West, Rooftop e My Way. Você conhece mais dela no site: https://ivysole.com/


Rimas e Melodias – Rimas & Melodias


Brasilidade e muitos ritmos explorados por esse coletivo maravilhoso que conta com Drik Barbosa, Karol de Souza, Stefanie, Tássia Reis, Mayra Maldijan e Tatiana Bispo. “Rimas & Melodias” aborda todos os assuntos que afetam as mulheres pretas, desde relações abusivas, a hipersexualização, racismo e a desvalorização da mulher dentro da cena musical de maneira geral. Um trabalho lapidado e muito bem produzido, carregado de referencias R&B, soul, e funk. Cada faixa aborda de maneira distinta um debate nunca tão bem colocado antes. Aulas de flow e manifesto, “Rimas & Melodias” é um projeto muito bem direcionado e objetivo.

Leikeli47- Wash & Set


Cheia de mistério e talento transbordando, essa rapper de Nova York sempre foi vista usando uma mascara de esqui, como uma assinatura, sem oferecer quase nenhuma informação sobre si mesma ou seu passado. Escolheu focar na sua rima e produção infecciosa e divertida. Seus trampos foram surgindo um pouco antes do contrato com a RCA Records e seus singles lançados acabaram dando a luz a Wash & Set no ano passado. Com um ritmo agressivo e denso, Leikeli47 é concisa e merece todos os espaços de destaque. Minhas faixas preferidas são: Attitude, Bags e Money.



Clara Lima – Transgressão


Clara Lima, cria de BH, apresenta um EP, na rua desde o ano passado, que denuncia a invisibilidade da mulher dentro da cena do rap nacional, e ao mesmo tempo expõe a quebra de paradigmas e a ascensão da artista. As faixas foram produzidas pelo CoyoteBeatz e Fernal, e a masterização por Dj Spaider. Explícita e com muita inteligência ela se destacou pelo seu trabalho dentro do grupo DV Tribo, e nas batalhas de MC realizada em Belo Horizonte e por todo o Brasil. “Transgressão” representa o registro da rapper que discute a respeito da vivência na favela, preconceito, machismo e criminalidade. Minhas faixas preferidas são: Vida Luxo, com a participação do Djonga, e Trangressão.


Nitty Scott- Creature!


Nitty Scott em “Creature!” esboça o universo das afro-latinas. Seu novo álbum é como uma narrativa de um livro de fatos e vivências pessoais. O projeto com 13 faixas colide com a percussão afro-caribenha onde ela expõe explicitamente como é ser latina e bissexual no mundo hoje. Inspirado por vibrações ancestrais, revolução feminista radical, ela consegue encaixar muito bem seu estilo em cada faixa, inclusive usando samples de funks cariocas como em “Pussy Powah!” e rimando apenas no violão em homenagem a uma mana em “For Sarah Baartman.”.

Cris Snj- Evoluindo Através dos Tempos


Uma das figuras mais importantes do cenário do rap nacional há duas décadas, Cris Snj nos presentou com “Evoluindo Através dos Tempos”, gritando mais uma vez pelas mulheres pretas e pelo seu espaço nos vários setores da sociedade. EAT transmite informação e empoderamento a cada linha. Aborda de forma sensível a religião em algumas faixas, e tem influências de quase todos os estilos, de MPB ao rock. Mesmo se reinventando sempre, ainda assim Cris mantem a linha do rap dos anos 90. Sem dúvida esse último trabalho segue preservando o velho e bom rap. Destaque para “Sigo Voando” e “ De Guerreira”.


Cupcakke- Ephorize


Rapper de Chicago, Cupcakke conquistou a critica com suas musicas e vídeos descarados. Seu trabalho explora a sexualidade em detalhes gráficos, e enquanto muitas das suas faixas são carregadas de humor e rimas cômicas ela também preza por um material sério que lida com abuso sexual e questões raciais. Ephorize é pancada atrás de pancada, com muita referência em trap e alguns elementos do reggeaton. Um dos meus álbuns mais amados de 2018, e ainda estamos em janeiro. Minhas faixas favoritas são: todas.



A’s Trinca- Identidade (Lado A)


Por ultimo e não menos importante, “Identidade (Lado A)” do grupo A’s Trinca lançado no dia 15 de dezembro do ultimo ano, com rimas e melodias marcantes somadas a muita disposição e militância. Seguindo a mesma linha, a respeito da experiência das mulheres na periferia e a conquista do espaço no cenário musical, denunciando o machismo em cada track. O projeto é divido em dois álbuns, esse seguido de um que deve estar na rua no primeiro trimestre desse ano. Com a influência da velha escola casando com elementos novos, A’s Trinca fixam sua marca na cena com esse trampo, e são uma promessa gigantesca pro movimento em todos os sentidos. Você pode encontrar elas em todas as plataformas de streaming. Favoritas: “3x4” que conta com Apocalipse Urbano, “Falsidade é Mato” e “Cantei”.

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