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  • Anna Rita S.

A abolição comercial escravista e as mães periféricas do brasil

Atualizado: 4 de Fev de 2019



Um dos meus livros favoritos da Angela Davis é sem dúvida “Mulheres, Raça e Classe” (tem link em pdf gratuito e traduzido, mas você também pode pechinchar em sebos por 5 ou 10 reais) aonde ela faz um estudo completo sobre o processo em que as mulheres escravas passaram desde a abolição do comércio de escravos internacional no finalzinho do século XIX, nos E.U. A, até a busca incansável por seus direitos dentro de um movimento feminista branco que a subjugavam.

Ela explica que essa fita da abolição do comércio internacional de escravos foi o inicio para que os senhores feudais tivessem que arrumar outra maneira de aumentar sua mão de obra focando na multiplicação por processo natural (reprodução), já que essa lei dificultou a expansão produtiva (do algodão, tabaco etc) do Sul para o restante do país. Simplificando, o tráfico de pessoas vindas do continente africano, até então legal, agora era proibido, e pra não enfraquecer o sistema, o comércio passou a ser movido internamente.


E como os caras faziam isso? Basicamente, na gestação forçada, (ESTUPRO). Se por um lado as mulheres escravas eram tão ou até mais lucrativas que os homens escravos, tinham a mesma carga horaria e eram castigadas da mesma maneira, por outro, elas eram violadas e postas em seus “papéis” de mulheres, para gerar novos escravos. O pior de tudo é que crianças nascidas e gestantes não eram poupadas. Muitas mulheres davam a luz em campo, e eram brutalmente castigadas por estar com pouca disposição devido à gravidez, pelo inchaço nos pés, mãos e seios e a produção de leite não aproveitada porque elas não tinham nem direito de amamentar seus bebês.Dessa forma as pretas potencialmente capazes de gerar de 6 a 12 filhos eram as mais procuradas.


A gente precisa lembrar que o sistema escravista era extremamente rentável e que depois do nascimento dessas crianças, elas eram vendidas para bem longe de suas mães, como crias de animais, para impedir revoltas e o fortalecimento das famílias dentro das plantações.

É bem sensível a maneira que a ativista aborda essas situações, com depoimentos de ex-escravos, não só focando nas estatísticas, mas de que forma a saúde mental dessas mulheres foi afetada e o reflexo disso no desenvolvimento da família negra, historicamente.



Na época surgiu o pensamento do gênero igualitário pela massa de mulheres proletárias que tinham seus espaços nas fábricas durante a Revolução Industrial, mas ele ainda não tinha a mesma força que a imagem clássica da “dona-de-casa” e da “mãe” em revistas e novelas românticas consumidas pelas mulheres brancas de classe média, termo esses que não chegavam até as mulheres escravas (as chamadas “fazedoras de nascimentos/ breeders”, visto como o oposto de mãe).

Os senhores passaram a determinar uma lei “partus sequitur ventrem” que na tradução livre significa que o filho segue a condição da mãe. E aí que entra a origem do índice de mulheres negras abandonadas que se perpetua até hoje. Essa era a regra dos donos de escravos, que não poucas vezes eram os pais dessas crianças, e pra não segurar essa responsa os registros de nascimento nas plantações não colocavam o nome dos pais. Qualquer semelhança, NÃO é mera coincidência. Nesse período a paternidade não tinha mínima importância.


A tese do legado da escravatura de Angela consegue simplificar a relação entre esse processo e o número de mães negras solteiras, que ainda hoje trampam, protegem suas famílias, resistem, por muitas vezes são batidas e violentadas, mas nunca dominadas.



“Essas mulheres escravas passaram para as suas descendentes ditas livres um legado de trabalho pesado, perseverança e auto resiliência, um legado de tenacidade, resistência e insistência na igualdade sexual”.

Ela também descreve a importância dessa mulher dentro do lar, depois da Guerra Civil, onde o número de escravos fugitivos aumentou bastante, e os que não resistiram passaram a ser uma exceção, e não uma regra. Expõem exemplos da família negra se humanizando, trabalhando juntas nas tarefas domésticas e como o papel maternal era fundamental pra essa base familiar, e não o contrário como acontecia (e ainda acontece) na maioria das famílias da classe A onde o pai sustenta econômica e culturalmente uma casa.

Por causa dessa mancha histórica, as pretas, que sempre estiveram do lado de seus homens na luta pelo direito civil, que apoiaram as mulheres brancas, no inicio do seu movimento pela igualdade sexual (mesmo esse movimento não cobrindo sua raça), foram as mais abandonadas e exploradas nesse processo.


Ainda hoje a chance de ser mãe solteira dentro da periferia é 3,5 maior que no centro de São Paulo, e o papo que essa questão é racial e econômica não é recente. Talvez essa seja a pista que explique porque hoje a maioria das mães solteiras e das mulheres que sofrem complicações com a prática do aborto clandestino são pretas, e porque mais de 60% das famílias pobres são chefiadas por mulheres pretas. Isso acaba virando um ciclo vicioso, porque a gente já tá ligada que os filhos dessas mulheres sofrerão violência do sistema no futuro.


Mas essa condição é bem mais complexa que isso. Envolve a negação social sofrida por elas, a solidão e dificuldade para serem mantidas em uma relação duradoura e saudável, o genocídio dos nossos na periferia, a defasagem econômica dessas estruturas familiares e a consequência disso, assunto pra outros posts que virão em breve na Tubmanbra.

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