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  • Anna Rita S.

Coletivo Otílias e a importância do empreendedorismo preto.



Antes da minha conscientização eu não conseguia relacionar empreendedorismo e comunidade preta, mesmo vendo tantas pequenas empresas sendo gerenciadas por pessoas pretas em sua maioria. Com mais pesquisa e estudo eu descobri que a maior parte dos empreendedores no Brasil é afro descendente com base em um levantamento feito pela SEBRAE (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas) de 2015.


O pensamento colonizador do negro que serve, do negro que trabalha e se sustenta em cima de um sistema de opressão é o que é vendido e forçado pelo mercado de trabalho num senso comum. Eu não consigo concordar com o termo da “população pobre e sem instrução”, reformulo dizendo em uma população que foi empobrecida e arrancada do conhecimento e principalmente da parte administrativa e decisiva dos lugares que ocupa.


Sempre vejo exemplos de casos norte americanos em relação ao empreendedorismo preto. Acontece que nos EUA, essa é uma prática consolidada, que assim como a conscientização racial que gerou a segregação, também se fez necessária à criação de um mercado paralelo que garantisse a sobrevivência da comunidade, e no Brasil isso acontece de maneira mais branda e menos recortada, mas ainda é visível.



O Coletivo Otílias veio da ideia de enxergar esses recortes e gerar visibilidade aos trabalhos autónomos pra gerar lucro. Criado por mulheres pretas independentes. Uma das fundadoras Manu Viana (@manuuvianaa) acredita que essa iniciativa esta ligada ao fortalecimento da comunidade “Poder aquisitivo para o povo negro é resistência. Ocuparmos lugares que teoricamente, pra sociedade, não são nossos, é resistência. Empreender e ter o nosso próprio negócio é resistência. Conversar sobre empreendedorismo e incentivar o povo negro a empreender de forma sólida são uma forma de fortalecimento.”.


Otílias quer dizer riqueza, ter posse, propriedade e nada mais justo do que uma coroa pra representar essa definição e agregar um sentido de união e crescimento ao que foi proposto. Para ingressar ao coletivo Manu explica “Pensando na dificuldade que é trabalhar por conta própria, arranjar clientes, ou alguém que goste/aprecie seu trabalho, Otílias foi criado na intenção de ajudar essa galera a divulgar seus trabalhos, o autónomo só precisa divulgar nossa página @otiliass_ (porque sem visibilidade, não tem como alcançarmos pessoas com conteúdo). Ele precisa também mandar fotos e informações sobre o trampo.” Sem restrição territorial ou de funcionalidade!



Essa iniciativa me lembra da Feira Preta, de São Paulo, criada em 2002, por amadurecer a ideia da autonomia financeira e desse processo de se desgarrar do que causa a dependência da comunidade em cargos não tão lucrativos, não por falta de opção, mas falta de instrução e visibilidade. Uma corrente enriquecida de dentro pra fora que trabalha principalmente a gestão desse conhecimento e já movimentou mais de 140 mil pessoas ao longo do seu funcionamento. Você pode se informar mais no feirapreta.com.br


O processo de acumulo de riquezas no Brasil está intimamente ligado ao sistema escravista. A exploração do povo preto causou uma exclusão dessas pessoas em áreas empreendedoras. Processos históricos que geraram a marginalização da comunidade, fortificando o racismo estrutural como o genocídio, o encarceramento em massa, a violência policial, a carência educacional e instrutiva, mecanismos que auxiliam na perpetuação das mazelas sofridas por esse povo e que grupos como o Coletivo Otílias, e a Feira Preta refutam e exercem força contra.


O empreendedorismo preto acaba sendo não só uma alternativa de lucrativa, mas também uma forma de emancipação cultural e de identidade. Um passo para o futuro e um passo para autonomia financeira e racial. Tornar o fluxo voltado para a comunidade, uma possibilidade acessível ao preto e preta que queira empreender, e que ele possa se assegurar que terá apoio dos seus.




Fontes: https://almapreta.com/editorias/realidade/as-faces-do-empreendedorismo-negro

https://projetodraft.com/reflexoes-sobre-as-barreiras-visiveis-e-invisiveis-dos-empreendedores-negros-no-brasil/

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