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  • Anna Rita S.

Mona Lisa e a colonização do hip-hop brasileiro.

Atualizado: 6 de Nov de 2018


Como bem sabemos a comunidade negra é responsável pelo pioneirismo da maioria dos gêneros musicais explorados hoje, a exemplo do samba, do rock, funk, blues, house music, e principalmente um dos mais visionários deles, o rap, que se fundamentou no hip-hop que abrange diversas outras camadas artísticas.

Um fenômeno afetou e continua afetando esses gêneros citados: a apropriação cultural, que ao contrário do que muitos pensam ser o ato de uma pessoa fazer uso de uma cultura divergente é na verdade a configuração do enaltecimento desse mesmo indivíduo, que não representa os fundamentos dos conhecimentos dos quais ele faz uso. Então não, não existe problema algum em existir sambistas brancos, desde que eles não tomem os espaços de fala daqueles que pavimentaram a estrada que eles estão fazendo seu corre.



Consequentemente por causa do enbranquecimento midiático e da fácil comercialização de pessoas brancas isso acontece em todos os ramos da indústria fonética brasileira, e é daí que saem artistas e grupos dentro do hip-hop como Matuê, Cacife Clandestino, Costa Gold, que alcançaram sucesso com músicas extremamente genéricas que fazem com que as pessoas avulsas a cena conheçam o movimento como um lugar que não se discute questões raciais, que não corre pelo direito ao manifesto, ou que não engrandece a raça que deu luz àquele ambiente através de mensagem, entretenimento e até ostentação.


A hipocrisia está em aonde esses caras buscam referências (quase todas pretas) e de que forma eles consomem e vendem o resultados dessas buscas. Caras que conquistaram pessoas que disseminam essa ideia, ajudando na propagação do desserviço que trampos como esses promovem a comunidade. Podemos chamá-las de bandeirantes que não matam.



Essa analogia à colonização é tão edificada quanto trágica. A colonização portuguesa não só tomou lugares físicos (traduzindo: shows, concertos, programas de TV), quanto lugares ideológicos (a inconsciência de pertencimento de pretos dentro do hip-hop, consequência da apropriação cultural). Logicamente um mercado que se auto consome em divulgação, trabalhos tocando na rádio, contratação de shows pelo Brasil, arrancando artistas negros (até algum deles comerciais) dos seus espaços de fala, do local no qual eles pertencem não só pela vivência, pela informação, mas principalmente pela raça.


O privilégio branco dentro da indústria musical se dá pelos quão facilmente esses artistas conseguem fazer seus nomes se apoiando em um estudo que não é sobre eles. Eu não comparo a Mona Lisa ao Matuê pelo simples fato dele ser idêntico a ela fisicamente, mas porque ela se tornou uma referência estética (como ele vem sendo em nível mainstream), o que foi muito reverenciado, estudado e observado, mais que as próprias técnicas usadas pelo pintor. Não podemos dizer que Matuê não é um artista que trabalha muito bem sua forma genérica de fazer arte, mas é interessante observar como isso tem ultrapassado trampos com conceito e a val que muitas vezes isentou ele de cobrança por parte de quem ouve, mesmo dizendo “nigga” em um som, sendo branco, ou quando ele brincou dentro de uma analogia racista sobre misturar uma japonesa com uma africana, numa música de duplo sentido que se referia à droga/mulher. Acontece que tais atitudes jamais seriam permitidas em um mercado onde Mona Lisas não tivessem tamanha visibilidade ou talvez onde artistas pretos não precisassem correr três vezes mais pela sobrevivência do seu trabalho justamente por não ter o que há de mais comercial na mídia hoje: A pele branca e os traços finos.


Não é preciso encaixar o movimento ao que está sendo discutido agora por pessoas brancas, porque na verdade ele não pertence a elas. E toda essa abordagem deixa mais explícita quantos pretos são esmagados e expulsos de uma cultura criada por eles, e obrigados a se modularem e deixarem suas pautas de fora do estúdio de gravação. Aconteceu com o Projota, Nego do Borel, artistas com propostas totalmente paralelas, mas que ainda assim gritavam pela favela e pela própria cor e você sabe do que eu estou falando se lembra de Diamante na Lama, e a Nova Ordem por exemplo.


A colonização do hip-hop brasileiro não acontece nas ruas, mas no contrato com gravadoras, no diálogo entre a grande massa que produz dinheiro, e a mídia tradicional, o que faz minha mãe conhecer 1Kilo mas não saber quem é o Djonga.


Não importa os meios pelos quais artistas negros reafirmem e auxiliem na autoestima e confiança de pretos que consumam sua arte. O importante é que o façam. Isso não limita a liberdade de expressão de nenhum deles, mas sim impulsiona pra que eles corram atrás de tal direito. Invizibilizar isso é negar a luta de um povo e lucrar em cima dessa apatia. Eu não ligo pra base do seu beat, ou de que maneira você vai passar essa visão. Mas se pretos ainda morrem por serem pretos, é de extrema necessidade que artistas que vivem de um movimento criado por esse povo, deem uma voz a essa pauta.


E quanto aos brancos que dizem trabalhar pelo game, mas não tem gratidão alguma por quem desenvolveu ele, um recado. Esse game não é seu porque sua fan base pré-adolescente estudante do Vértice consegue criar uma treta entre você e um artista preto a troco de nada, ou porque eles lotam seu show e dizem que você é o rap de verdade pra lamber seu saco e você curtir uma foto deles no Instagram. Vocês sabem quem é o rap/trap de verdade. Vocês sabem de onde eles vieram, além do que é deles que vocês arrancam referências pra gritarem pelos quatro cantos que quem manda é a %$#& com esse discurso de música para todos.


Por fim minha ultima declaração sobre, fica como pergunta:

Onde a Mona Lisa estaria exposta se fosse preta?




#Abacaxisóafruta

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