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  • Anna Rita S.

O Estado acena com as mãos sujas de sangue preto.

Genocídio

Substantivo masculino

1- extermínio deliberado, parcial ou total, de uma comunidade, grupo étnico, racial ou religioso.

"o g. de negros e indígenas durante a colonização brasileira"

2- destruição de populações ou povos.

"uma “guerra contra as drogas” resultaria num verdadeiro g."



Ontem (quinta-feira, 14 de fevereiro) mais um jovem negro foi morto pelas autoridades responsáveis pela segurança e proteção cidadã, no hipermercado Extra, acusado por tentativa de roubo da arma de um dos seguranças, na unidade localizada na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio de Janeiro. Esse episódio compõe o fenômeno do genocídio brasileiro que ataca diariamente vidas negras, que passam a ser lembradas pela mídia como corpos sem identidade, família ou valor.


Esse quadro já dura 575 anos, desde que os primeiros pretos foram sequestrados de suas casas, famílias e cultura com o objetivo de serem escravizados e enfraquecidos. Muitas vidas negras foram perdidas. Muitas pessoas se mataram dentro de navios negreiros para fugir do que não conheciam. Mulheres e homens no tronco agonizaram até morrer. Essa foi à cena do vídeo circulado nas redes sociais, de Pedro Henrique Gonzaga que foi diminuído a uma morte lenta, assistida e banalizada pelos guardas.



Não é analogia ou metáfora. Estou dizendo sobre crianças como Maria Eduarda, morta por bala perdida aos 13 anos, dentro da própria escola em Acari. Sobre mulheres como a vereadora Marielle Franco assassinada, há 11 meses, sem conclusão no caso. Sobre homens como Amarildo que em 2013 foi detido por policiais, levado até uma UPP e seis anos após sua morte, seu corpo nunca foi encontrado. Sobre mães como a mãe do Pedro Henrique que presenciou a morte do filho.



Jim Crow

O genocídio no Brasil não é um evento fatídico e pontual como o período trágico em que judeus sofreram o mesmo, mas sim um processo construído historicamente, e que também compõe o racismo estruturado e traduzido de diversas formas como dados em que 60% das mulheres que morrem ao dar a luz pelo SUS são pretas, ou que a cada 23 minutos morre um jovem negro em um país que foi o ultimo a abolir a escravidão, mas que não necessariamente enxerga o preto como gente.


A construção da “besta ameaçadora” criada pelo Estado em volta do negro é uma visão americanizada não tão antiga. Jim Crow, personagem recheado de estereótipos físicos e psicológicos, aonde o homem negro era visto como bandido, preguiçoso, estuprador e malandro, logo uma ameaça visível a ser combatida pelo governo. O que foi feito através de leis discriminatórias.


Todas as instituições que servem a essa máfia também conhecida como Estado Democrático de Direito, seguem reformando os mecanismos de aniquilação dos frutos dessa Diáspora, causada pelas mesmas, o que se fez necessária depois que escravizar passou a ser uma prática ilegal. Agora já não é mais permitido prender pretos por cunho racial, o que não impediu que Rafael Braga fosse preso, por porte de pinho sol. Também se tornou proibido acusação sem provas e/ou assassinato dessas pessoas sem que elas pudessem se defender, o que não fez com nenhuma dessas vidas que eu citei fossem poupadas.


Sempre que abordamos assuntos sobre escravidão, holocausto, guerras que resultam no extermínio de uma cidade inteira, (o que configura o genocídio), nos imaginamos nessa situação e alguns se arriscam a dizer que nunca seriam coniventes com tal quadro. Acontece que esse não é um debate histórico. Isso está acontecendo, e estamos sendo coniventes.


Termino esse artigo que fiz em prantos, com um discurso recente a respeito da violência que nos mata todos os dias, causada pelo Estado, pelo tráfico de drogas financiado por esse mesmo Estado e pelas condições desumanas em que a população periférica é tratada nos setores de educação e saúde, responsáveis pela morte intelectual e física dos meus iguais.



George Stinney. Aos 14 anos foi julgado e acusado sem provas pelo estupro de 2 mulheres brancas. Menos de 3 meses depois foi executado por pena de morte.

“Todo caso de brutalidade policial contra um negro segue o mesmo padrão. Que tipo de democracia é essa? Que tipo de liberdade é essa? Que tipo de sistema politico social é esse quando um homem negro não tem voz no tribunal? Não tem nada do seu lado além do que o homem branco escolhe dar-lhe? Meus irmãos e irmãs temos que acabar com isso e nunca ser parados até que paremos nós mesmos. Eles atacam a vítima e, em seguida, o criminoso que atacou a vítima acusa a vítima de atacá-lo. (...)”.

Malcom X, 2 de Fevereiro de 1965.



·Herinaldo Vinícius de Santana, 11 anos, morto em operação policial em setembro de 2015 porque assustou um dos policiais quando corria para comprar uma bola de gude.

· Juan Moraes, 11 anos, morto em operação policial em Junho de 2011. Seu corpo foi encontrado 10 dias após o assassinato em um rio da região. O inquérito aponta que não houve troca de tiro entre policiais e bandidos no dia.

· Chacina em Costa Barros, Roberto Lima da Penha, com mais quatro amigos, metralhados por 111 tiros por policiais militares quando saiam para comemorar o primeiro emprego dele. A mãe de um deles morreu de depressão no ano passado.

· Cláudia Silva Ferreira, morta e arrastada por uma viatura em Março de 2014. Seis policiais foram indiciados, mas não ouve nenhum julgamento até agora.

· Rodrigo Alexandre da Silva Serrano esperava a família em uma rua em setembro de 2018 e foi executado por PM, pois teve um guarda-chuva confundido com um fuzil e um bebê conforto com um colete a prova de balas. Ele deixou mulher, um filho de quatro anos e outro de 10 meses de idade.


Filhos de Cláudia Silva, arrastada por uma viatura em operação policial.


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