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  • Anna Rita S.

Pare de se odiar, um artigo para mim.



Muita gente me pergunta por que eu não sou tão ativa quanto eu deveria na internet. Porque não posto tantas fotos, stories, e trabalhos propriamente ditos inclusive no meu site que eu me esforcei tanto pra conquistar. A depressão as vezes faz isso. E é muito difícil admitir para nós mesmas que nosso corpo e nossa mente estão suscetíveis a desenvolver qualquer tipo de distúrbio mental. Isso porque desde crianças escutamos que isso é doença de gente doida, que é uma frescura de uma pessoa preguiçosa que não quer trabalhar.


Esse não é um artigo sobre o que é depressão ou ansiedade em si, mas um artigo para mim mesma, voltar aqui e ler todos os dias em que eu estiver me odiando, me sentindo pequena, feia, desvalorizada e esquecida. Eu sei que se estivesse saudável eu teria alcançado outros lugares muito maiores do que os que ocupo hoje. Já estaria com 10 mil seguidores concordando com tudo que digo e no mesmo instante me cancelando por qualquer opinião controversa. A internet é tão deprimente quanto a gente, e não saber lidar com isso, me faz perder dinheiro o que me faz entrar nesse ciclo de insuficiência e depreciação.


Trabalhar com informação e resistência negra num país racista deixa a gente ainda mais doente. Saber que os nossos morrem todos os dias com rotulo de bandido. Um genocídio permitido e institucional, me leva a pensar o porquê eu gostaria de ter filhos se não um cachorro que morre com no máximo 20 anos. Porque eu vou querer ter diploma para quando precisar competir com um branco ter que ouvir que o meu perfil não é o padrão da empresa, mas que eu tenho um histórico ótimo. Me leva a pensar se realmente é possível ser uma mulher preta hoje no Brasil sem se comparar todos os dias com blogueiras americanas de 21 anos que ganham Land Rover do namorado para eles gravarem a reação no youtube. Se é possível de verdade parar de sentir que para sempre você vai correr em desvantagem enquanto se é artista por tanto tempo e vê as “mona do babado nega” fazerem contratos gigantes.


Faço isso desde os quatorze, e eu sei que poderia sair do lugar se conseguisse, porque ganhar dinheiro com o que gosta, todo mundo quer, mas não da pra parar de cuidar da saúde antes até porque independência não espera você se decidir na vida. Impor que a gente pare de se odiar é muito fácil depois que a crise passa, seus queixos param de bater e seus músculos não estão se contraindo mais. Impor que a gente pare de se odiar é muito fácil depois que o choro passou e você volta a respirar. Mas sabe o que não é fácil? Escrever esse artigo, que tá mais pra “se ajude a se odiar”, mas tem o proposito de fazer com que a gente abra os olhos mesmo que doa.


Faço isso desde os quatorze e achava que com 20 estaria rica e tomando meu bom vinho todos os finais de semana na minha casa bem mobiliada e decorada. Com quatorze eu não me odiava e sonhava bem mais alto do que depois que ganhei meu primeiro dinheiro lavando bunda de cachorro bravo em um petshop da minha cidade. Talvez eu precise voltar nesse dia e me lembrar o que me motivava. E o que me motiva é meu propósito, formar e informar irmãos de cor, para que eles sejam sonhadores como eu era aos quatorze.


Esse não é o artigo mais legal do meu site, mas por alguns minutos me salvei através dele. Pare de se odiar, consigo dizer agora, e quando não estiver conseguindo, vou voltar aqui.

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