Buscar
  • Anna Rita S.

Pretinhas que amam demais.



As estruturas sociais que reforçam os espaços que ocupamos muitas vezes nos obrigam a acreditar que as relações afetivas não são lugares acolhedores para que a gente se entregue de forma genuína, e isso acontece por uma série de fatores que nos acompanham desde a infância, quando percebemos que as nossas amizades são construídas de outras formas e precisamos constantemente reforçar a nossa importância pra sermos aceitas, o que nos sucumbe a uma carência de atenção e confiança gigantescas.

Ser uma criança preta que com toda a sua inocência no processo de construção de ciclos sociais pode ser muito doloroso, principalmente porque no auge da nossa imaturidade não conseguimos entender porque precisamos nos desdobrar para cultivarmos poucos “amigos” e esse pode ser o inicio de um trauma de socialização muito denso, que se estende até as nossas relações afetivas no futuro. O racismo se infiltra através da criação que os nossos colegas de classe tiveram acerca da nossa raça e cultura, e quem paga somos nós.


Agora imagine uma adolescente que já carrega essas cargas emocionais e começa como toda pessoa comum da sua idade, a se interessar por garotos que usam da sua imagem pra zoar o amigo, garotos dos quais nunca se interessaram pelos seus traços, cabelos e gostos. Uma garota que se submete a qualquer situação para se sentir normal, ou desejada como suas amigas brancas.


E são todos esses processos que complementam como a maioria massiva das mulheres pretas se sente ao se relacionarem e começarem a conviver com todos esses traumas e lembranças ruins do dia que elas tentaram ocupar esses lugares afetivos, e isso a desgasta estando solteira, namorando ou casada. O estado civil é apenas um propulsor da forma que esses pensamentos destrutivos irão se alimentar dessa mulher, e a ausência de um relacionamento não é garantia de que uma mulher preta não vai ser engolida pela autocrítica.


Se achar menor por não ter o cabelo escorrido até a bunda que os caras gostam nos vídeos das mina dançando funk, se sentir feia porque o mercado dos cosméticos não atende o tom da sua pele, e sempre enfatiza como a melhor opção é esconder seus traços negroides para ser inserida no padrão de beleza comum, se sentir suja porque todos os caras que se interessam por você não te assumem e te culpabilizam por reclamar disso. Todas essas experiências abrem uma ferida que só cresce à medida que a gente se permite compartilhar do amor com outro e isso reflete inclusive na constituição familiar geral.


60% do caso de mortalidade materna acontecem com mães negras, e a interferência do Estado diante da constituição da nossa família é desprezível e racista, porque desmantela a paternidade preta, aumentando a taxa de mães periféricas solo, e destrói ainda mais a nossa concepção de nascimento de uma base familiar consolidada e saudável. E todos esses contextos além de serem históricos, porque são trazidos desde a época em que corpos pretos eram comercializados, violados e abusados, desconsiderando a saúde mental de todas aquelas mulheres que foram tiradas dos seus filhos, maridos, religião, e costumes, são também contextos sociais tão presentes quanto qualquer outro, e está intimamente ligada a violência policial e a como o Estado nos animaliza rejeitando o nosso direito de amar, de alimentar nossa família, oferecer boa escolaridade aos nossos filhos, e ainda tempo que nos é tomado do mercado de trabalho opressor e racista.

Essa atmosfera em que nós pretinhas transitamos, engrandecem a nossa insegurança, os nossos ciúmes e todos os outros desafios que estão ligados a se relacionar com outro e com nós mesmas, o que ajuda a nos afastar de qualquer homem ou mulher que nos interessa, porque se tratando de vivências pretas, essas pessoas também carregam cargas emocionais irreversíveis desde a infância.


Resumindo, precisamos de ajuda.


Não mais substituiremos conexões vãs na tentativa de preencher esse buraco afetivo. Precisamos de ajuda porque precisamos ser ouvidas, humanizadas. Reencontrar-nos com objetivos que visem a nossa felicidade e satisfação. Brigar pela valorização dos nossos corpos pra que dessa forma a gente consiga falar da liberdade sexual sem que as nossas curvas seja hiperssexualizada. Exercitar essa autoestima vendida de uma maneira tão suja pela mídia, e tão banalizada pela branquitude. Nem todas as mulheres são uma ameaça. Tem como ser bonita e admirar outra mulher que também seja. Nem todas as situações são más intencionadas, porem qualquer questionamento ou pensamento destrutivo é justificável se tratando de uma preta que passou por todos os abusos e opressões possíveis até se entregar de novo em outro relacionamento, ou simplesmente na decisão de ficar sozinha e decidir amar mais a si uma vez na vida.

1,276 visualizações1 comentário