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  • Anna Rita S.

Se reafimar não é se desculpar, avisem William Waack.

Atualizado: 4 de Fev de 2019

Depois de uma polêmica que custou seu emprego e credibilidade popular, o apresentador perdeu mais uma oportunidade. A de ficar calado.



Após dois meses do enfático vídeo em que o apresentador do Jornal da Globo, William Waack, é gravado fazendo um comentário racista minutos antes de entrar no ar, saiu um pronunciamento dele na Folha de São Paulo, e precisamos falar urgentemente da sua tentativa desesperada de silenciar uma comunidade num mesmo artigo que deveria pedir perdão a ela.


Primeiro vamos nos recordar da investida frustrada da Emissora Rede Globo de Produções, de reverter o quadro e contratar peritos para alegar que na verdade o que foi dito pelo apresentador não seria bem “É coisa de preto.” e sim “Coisa de Cleiton.”. Profissionais esses que desqualificaram também a gravação de Joesley e Temer e garantiu que Serra não foi atingido por uma bola de papel e sim um míssil. Mas essa piada já entra em contradição com o inicio do pronunciamento de William, que afirmou que se os donos da gravação tivessem o procurado antes do vazamento do vídeo, ele teria pedido desculpas e esclarecido que foi só um comentário em tom de brincadeira sem a intenção de ofender. “Cleiton” agora me parece um adjetivo bem pesado para um preto.


Durante todo o artigo, percebi como ele explorou nomes de profissionais negros como Gil Moura, cinegrafista, e Glória Maria, jornalista renomada, para legitimar suas palavras. Uma estratégia muito boa pra quem tá fudido. Mas eu não caí. Eu até adoraria colocar a declaração feita por Gil em sua conta pessoal no Facebook, aqui, mas não achei seu perfil tampouco o post na íntegra defendendo Waack, que o apresentador alega existir.

O que eu achei foram matérias, e artigos de opinião de amigos jornalistas brancos de William jurando ódio aos movimentos negros, e a milícia – nas palavras de Reinaldo Azevedo- das redes sociais. O mesmo Reinaldo fiscal de raça que manifestou que William nem é tão branco (vou deixar o link de todos pra vocês) dizendo também que a denúncia popular à Waack é no mínimo ofensiva, e nem deveria ter vazado já que faz parte de uma conversa particular e não é de interesse público. Ou até mesmo Euler de França Belém que acha exagerado o tratamento popular ao caso e arrisca uma tentativa clássica de ganhar propriedade pra discutir o assunto:


“Agora, o meu caso particular. Há quem me considere branco. Há quem sugira que sou moreno. Há quem me aponte como pardo. Mas ninguém diz que sou negro. Mas, como não ser negro, se minha adorável bisavó, Frutuoza Ribeiro Marques, era negra, negríssima?”


.Prossigamos com a palhaçada.


“Sabem como os amigos chamamos William? “Alemão”! Sim, “Alemão”. E vai nisso uma penca de brincadeiras cruzadas. Em primeiro lugar, Santo Deus!, ele não é exatamente um “branco”, não sei se perceberam. O homem é meio preto, meio árabe, meio misturado”


William continua falando que reconhece o efeito do racismo no Brasil, e tem consciência da discriminação, da falta de oportunidades e não sei o que, e passa mais da metade da declaração reafirmando o quanto ele nunca foi intolerante em todos os seus 65 anos vividos, com um discursinho que ouvimos todos os dias de racistas.


“Não digo quais são meus amigos negros, pois não separo amigos segundo a cor da pele. Assim como não vou dizer quais são meus amigos judeus, ou católicos, ou muçulmanos. Igualmente não os distingo segundo a religião-ou pelo que dizem sobre política.”


Mas o que mais me chamou atenção nessa publicação foi como explicitamente ele tenta deslegitimar a palavra (que sempre valeu menos) de toda uma comunidade que se sentiu ofendida e ferida por esse comentário infeliz. Classificando empresas de “mídias tradicionais” e rede social como o lar de guardiões dos “fatos objetivos”, e da “verdade dos fatos.” Incluindo também os grupos de movimentos em prol da igualdade racial que segundo ele estão constantemente desafiando essas empresas.


Isso é, no mesmo instante em que ele enaltece frases proferidas por negros como forma de ratificar esse discurso, ele simplesmente defeca na cabeça de todos os outros que virtualmente bateram no seu ombrinho e disseram “oi meu anjo, você é racista sim.”. Fora os pacotinhos de opinião estereotipada que ele usa do tipo. “O povo brasileiro é brincalhão assim mesmo.”


Ele até entende seus amigos que ficaram bravos com a piada. Ele até entende a revolta, mas ele tem 48 anos de profissão e parece que isso permite que alguém seja racista e ganhe espaço em grandes veículos de informação e notícia pra vomitar bobagem pra todos os lados.


Termina reafirmando (outra vez) suas diversas obras e toda a sua contribuição para o jornalismo brasileiro (fatos inegáveis). Vou tentar ser um pouco didática pra quem ainda não entendeu. Quando você faz uma “brincadeira racista” você é racista, sendo um dos melhores jornalistas do Brasil ou sendo o PM que perguntou o que o meu parceiro chiclete de piste estava fazendo na rua naquela hora comendo um lanche. Sendo o presidente da república ou sendo o segurança do shopping que indagou a presença de pretos favelados em determinada loja. Casos registrados, porque se fomos contar os que não são, vou escrever o maior artigo do site. Não estamos discutindo a qualidade profissional de ninguém. Estamos discutindo discriminação.


E para o desespero da “mídia tradicional” é graças aos “canalhas do linchamento”- como eu carinhosamente sou chamada por Pondé – que profissionais como William, Rodner Figueroa, Alê Oliveira, Marcão Chumbo Grosso, Raul Gil, Mel Gibson, Jonathan Rhys Meyers e milhares de outros “formadores de opinião” foram denunciados e seguem respondendo por seus respectivos crimes de injuria racial. Continuaremos gritando.


Fontes: http://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2018/01/1950180-nao-sou-racista-minha-obra-prova.shtml , http://www3.redetv.uol.com.br/blog/reinaldo/post/william-waack-o-jornalista-mais-importante-do-pais-nao-e-racista-os-covardes-se-assanham/, https://www.jornalopcao.com.br/colunas-e-blogs/imprensa/e-se-william-waack-nao-for-racista-por-que-demiti-lo-devido-uma-frase-infeliz-109506.


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