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  • Anna Rita S.

"This is America" e seu protesto explícito

Atualizado: 4 de Fev de 2019

Com três dias de lançamento e recorde de visualizações, o novo trabalho de Donald Glover aka Childish Gambino, “This is America” coreografado pela ruandesa Sherrie Silver e dirigido por Hiro Murai, foi executado com maestria e carrega em cada frame referências que denunciam tragédias ocorridas envolvendo a comunidade afro-americana, que acontecem explicitamente durante todo o clipe. Como essa obra está sensacionalmente posicionada diante de assuntos que precisam ser discutidos, eu decidi listar todas referências que se encontram abordadas no decorrer do vídeo me aprofundando em cada um deles.




1ª Ref: Jim Crow matando a credibilidade musical de uma negritude sem identidade.


Nas primeiras cenas, Glover aparece fazendo sorrisos grotescos e poses exageradas, aonde ele “brinca” de Jim Crow. Personagem este visionado por Thomas D. Rice, um comediante nova iorquino que em busca de inspiração foi ao sul dos Estados Unidos. Lá ele descobriu que os donos de escravos gostavam de comparar seus escravos a corvos, que na hora de dormir costumavam cantar músicas em homenagem a uma figura lendária do nome Jim Crow.

Então esse mesmo homem passou a pintar seu corpo de preto e se apresentar em casas de show fazendo adaptações da canção A Jump Jim Crow. Nessas apresentações ele incorporava o que ele achava ser um “típico negro”: um cara vestindo trapos, palhaço, que andava de forma engraçada e era um pouco burro. E esse termo ganhou tanto sucesso, que deu espaço e serviu de inspiração para vários shows, programas e filmes com figuras estereotipadas como essas, pudessem ser consumidos e adorados.



Ex: Os personagens corvos do filme da Disney “Dumbo” de 1941, lembrados pelo andar esquisito, a malandragem, a forma de falar especifica e as roupas gastas, características associadas a negros, cujo chefe se chamava Jim Crow, e a apresentação The Minstrel Show um lugar onde você pagava pra verem homens brancos fazendo black face pra imitar negros fazendo coisas cotidianas.

Essa coisa de Jim Crow era tão pesada, que as leis segregacionistas criadas nos Estados Unidos, carregavam o nome de Jim Crow Laws.


1.1

Uma segunda teoria do que poderia ser a referência da primeira cena, é uma critica a própria indústria musical negra de forma geral, aonde Childish se inclui, apontando a pressão de ser performativamente negro numa era da violência armada, e reforçando o estereótipo do preto rapper, do preto comediante, do cantor de soul, apenas para ganhar dinheiro, matando a si próprio com um tiro na cabeça.



O homem morto representa a primeira tradição de música popular negra no país, o blues, surgido da resistência e da criação desses negros. O clipe indicaria que toda essa pressão de se manter estável espiritualmente e financeiramente dento da indústria acabou sobrepondo essa tradição mais crua, que faz com que os artistas reforcem a imagem de Jim Crow de certa forma ao tentar reverter isso.


“Mas isso é a América, Gambino nos diz. É brutal, mas ou você toma parte no espaço que a cultura americana designou para você (mesmo que seja apenas para fazer o papel de Jim Crow, como muitos artistas americanos fizeram e continuam a fazer desde a fundação do país) ou perece”. Justin Simien Criador da série e do filme ‘Cara Gente Branca’, no Twitter.


2ª Ref: A comercialização da morte.

Logo após as primeiras cenas o clima fica sombrio, o coral para e ele descreve “Essa é a América.”. Ele entrega a arma pra um garoto que cuidadosamente a guarda envolto de um pano vermelho e essa ação se repete algumas vezes, enquanto cadáveres ao fundo são esquecidos como nada. A mensagem é a seguinte: Nos Estados Unidos, onde cada estado fiscaliza e regula o porte e a comercialização de armas, é mais importante cuidar de armas, do que de pessoas, mesmo que essa atitude seja a consequência de tanto sangue, representado pelo vermelho no pano.




3ª Ref: Jovens inativos e danças como distração

Ele aparece dançando passinhos do momento com alguns jovens é a maneira de Glover dizer que todas essas distrações e formas de entretenimento mascaram o caos que acontece bem atrás deles durante todo o clipe, pessoas correndo, carros queimados, assaltos, suicídio etc. A coreógrafa do vídeo, Sherrie Silver, retweetou um comentário, talvez concordando, de alguém que argumentou: “Os movimentos de dança de Childish Gambino nos distraíram da loucura que estava acontecendo no fundo do vídeo e é exatamente esse o ponto que ele está tentando fazer..”




Tanto que você precisa assistir o vídeo várias vezes pra perceber o que acontece no plano de fundo, porque a cena foi enquadrada e coreografada pra que você não perceba, mesmo sendo questões importantes e catastróficas que geralmente chamariam a sua atenção.

Uma crítica explícita (como tudo nesse trabalho) direta aos jovens negros que acabam sendo sugados por esse mundo cheio de informação, que não os deixa terem contato com injustiças e atrocidades que atingem sua comunidade.

Ex: No tempo 1m30s do vídeo onde no fundo conseguimos ver um jovem jogando dinheiro pro alto com uma Cash Cannon da Supreme, aquelas armas que jogam dinheiro pra cima, sonho de consumo de muita gente.


“De qualquer forma, quer se diga que essa dança é para entreter os brancos ou para sobreviver, é uma estratégia para lidar com a morte”, escreveu a colaboradora Adrienne Gibbs para a Forbes. A coreografia de Sherrie Silver mistura danças tradicionais e novas, passos de Gwara Gwara, da África do Sul, e das danças de rua presentes em vídeos virais.”


4ª Ref: O Massacre do Coral de Charleston

Essa cena do clipe faz uma alusão ao massacre de um coral de uma igreja evangélica negra de Charleston, Carolina do Sul, onde nove pessoas foram assassinadas em 2015. Estão entre as vitimas, relembradas aqui:


Reverendo Clementa Pinckney, 41, era o pastor da igreja e senador estadual da Carolina do Sul. Depayne Middleton-Doctor, 49, cantava no coral da igreja, de acordo com um jornal local. Ethel Lance, 70, trabalhava há 30 anos na igreja, segundo um parente contou ao jornal "Post and Courier".Susie Jackson, 87, uma antiga frequentadora da igreja, era prima de Lance. Cynthia Hurd, 54, era gerente da filial da Biblioteca Regional St. Andrews, a apenas algumas milhas da igreja onde ela foi morta. Tywanza Sanders, 26, se formou em 2014 na Universidade de Charleston Allen. Reverenda Sharonda Coleman-Singleton, 45, era pastora da igreja e técnica de atletismo em uma escola de ensino médio. Myra Thompson, 59, era um membro ativo da irmandade Delta Sigma Theta, organização sem fins lucrativos de mulheres com formação universitária dedicadas ao serviço público com ênfase em programas que têm como alvo a comunidade afro-americana, de acordo com o "Greenville News". Reverendo Daniel Simmons Sr., 74, que morreu no hospital, era um pastor aposentado de outra igreja de Charleston, segundo a emissora ABC News.

Todos mortos por um rapaz branco de 22 que se rendeu sem resistência durante uma blitz da polícia, havia passado uma hora com os fiéis de uma das igrejas mais emblemáticas do país, forte símbolo da história da comunidade negra no sul dos Estados Unidos, marcado pela escravidão, movimentos de luta pelos direitos civis e as atuais tensões raciais.


5ª Ref: Black Lives Matter


Após matar um coral inteiro a queima roupa, que cantava também a primeira linha da música, Childish sai despreocupado e passa do lado de um carro da policia, e entre pessoas correndo naquele ambiente confuso que acontece atrás dele durante os outros frames, uma lembrança talvez da impunidade policial e da invizibilização do caso diante da instituição, racista estruturalmente. Ele também faz referência a revolta do movimento Black Lives Matter que sempre reage contra a violência policial que atinge a comunidade negra, quando surgem vários jovens fugindo da policia com cassetete em mãos.


6ª Ref: Apocalipse 6:8

Talvez a imagem mais emblemática de todo o clipe, uma figura de preto, em cima de um cavalo branco acompanhado pelo carro da polícia. Esta poderia ser uma referencia bíblica à Apocalipse 6:8 que dá detalhes do fim do mundo:

"Eu olhei, e lá antes de mim estava um cavalo pálido! Seu cavaleiro se chamava Morte, e Hades seguia logo atrás dele. Eles receberam poder sobre um quarto da terra para matar pela espada, fome e peste e pelas feras da terra.”.


Na imaginação cristã, o segundo cavaleiro representa a morte e destruição,

Essas figuram atravessam o enquadramento enquanto Childish dança novamente com adolescentes movimentos virais da internet, remetendo àquela ideia de distração.



7ª Ref: O baseado

No final do vídeo, acontece uma cena de silencio absoluto, onde tudo fica quieto e toda a confusão é interrompida e as pessoas se calam. Ele acende um baseado, que faz referência ao uso da maconha como forma de aliviar e de fazer com que ele se esqueça de todos esses problemas e desse fardo de ser um homem negro na era da violência armada estadunidense, representando um escaque, o descansar a cabeça de todo o racismo estruturado que a comunidade enfrenta diariamente de muitas formas.

7.1

Logo após a cena em que ele acende o baseado, e o mesmo músico que ele assassina no início do som, está de volta no meio de carros dos anos 80, poderia se referir também a uma ideia abordada numa musica do albúm 4:44, The OJ Simpson Story, com a mesma linha do raciocínio de que não importa quantos carros, mulheres você tenha  e quão abstraído de todo esse genocídio, você  esteja,

Você ainda é um homem negro vitima dele.

8ª Ref: SZA é a liberdade

A rainha SZA, dona do R&B, poderia estar representando a Estátua da Liberdade, em sua aparição sentada em um carro do lado direito de uma das cenas finais . Ela postou uma foto em sua conta no Instagram que sugeriu que estaria retratando a Estátua da Liberdade. Seu cabelo foi estilizado em vários pequenos bolos na cabeça, materializando a coroa.


Segundo a teoria, a Lady Liberty estava observando passivamente, aqueles que a viram chegando nas terras americanas por uma vida melhor, sendo agora marginalizados.






9ª Ref: Get Out Glove!

A última cena em que Childish aparece correndo cheio de medo dos olhos de um grupo de pessoas brancas, é uma referência clara ao filme de Jordan Peele, Get Out.

No filme um negro visita a casa dos pais de sua namorada branca, num final de semana, e sente um leve desconforto durante a viagem que desencarreta inúmeras situações  que fazem alusão ao racismo e a relacionamentos inter-raciais.

Esse conceito afundado aprofundado por Peele que dizer que negros são marginalizados. Ele diz “ Não importa o quanto gritemos, o sistema nos silencia.”

As linhas finais falam “ Você é apenas um homem negro nesse mundo. Você é apenas um código de barras.”


Ps: Participações que você não percebeu.


Um seleto grupo de artistas é creditado na música. De acordo com o Genius, “This is America” traz versões de 21 Savage, Young Thug, BlocBoy JB, Slim Jxmmi de Rae Sremmurd e Migos ’Quavo.


Mais uma obra genial do que pode ser o último álbum de Donald Glover. Uma aula.

Nada de novo sob a luz do sol.

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