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  • Anna Rita S.

Você não gosta de bandido. Você gosta de um branco com grillz.

Atualizado: 4 de Fev de 2019




Esse artigo não é sobre a mente doentia das disseminadoras do termo “carinha de bandido” que cantam “Lady” do Costa Gold no chuveiro. É sobre apropriação.


O rap enquanto movimento periférico e protestante foi criado e difundido dentro de uma cultura preta que através do manifesto denuncia sua realidade, mas ao mesmo tempo entretém e busca pela ascensão e espaço do preto enquanto influencia musical. Ou deveria ser. Ele não começou nos Estados Unidos, e sim na Jamaica, e foi através dos ritmos explorados lá que ele foi sendo lapidado e teve suas raízes exaltadas e algumas, esquecidas.


O que mais me incomoda na globalização desse estilo musical, é que quando ele conseguiu espaço nas casas dos classe média, e média alta, ele começou a enfrentar um processo de degradação qualitativa gigantesco. Pra vender. E isso acontece em quase todos os movimentos que crescem. Foi o que deu a luz a meninas “wanna be black”, que usam gírias de quebradas nas quais elas nunca pisaram, (a não ser pra comprar sua maconha), ostentam seus sapatos e bolsas importados, e não cansam de passar vergonha com aquele discurso descontruidíssimo do amor sem cor, raça humana e tesão por bandidos aka PK do Class A.


Meninas que nunca verão ou viram parentes ou irmãos serem classificados de marginais ou bandidos porque basicamente ninguém do seu ciclo social nasceu ou foi criado as margens. Pra sua ignorância: Bandido em uma comunidade tem um peso e uma definição de arma e resistência. Uma arma criada pelo próprio estado com o objetivo de exterminar uma sociedade pobre responsável por gastos e a criminalidade, consequentemente. Bandido sempre foi uma posição de status/repulsa, coragem e comida na mesa, nada que inclua adesivos da Supreme no shape do skate e corrente de ouro com o rosto estampado.


Mas ai eu sou chamada de racista reversa que defende discurso de ódio que branco não pode fazer isso ou aquilo. Eu não falo nada. E pra você ignorante que não estuda, a apropriação cultural não é um livro de um sebo de três reais, que adota os mandamentos do comportamento humano e diz que brancos não podem fazer rap. A apropriação acontece aonde esses artistas tomam o espaço do preto dentro do seu próprio ritmo cultural. Recebem cachês melhores, mais convites pra trabalhos, maior visibilidade e colocam o preto em segundo plano. Um preto com vivências reais, ambições reais, conquistas reais e tão talentoso quanto (ou mais) . E eu nem vou citar a apropriação dentro do reggae, do rock, blues, jazz...


A culpa não é sua que dança Iggy Azelea no seu quarto de noite (com a porta fechada), ou que pagou alguns dólares no iTunes por uma música do Mac Miller. A culpa é da indústria que é racista que te vende isso, e que sempre consegue dinheiro tirando o preto do papel de destaque. E isso é consumido demais, porque são esses trampos que ganham premiações, passam na TNT, ou tocam na Jovem Pan na hora do seu almoço.


Tem rolado uma onda de informação e fortalecimento dentro do movimento onde os artistas pretos e principalmente as empresas tem entendido o quão importante é se fazer mainstreaming enquanto transmissor de linhas e produções que expõem a realidade e a ascensão dele não só como poeta e criador de conteúdo, mas como cidadão. E esse entendimento tá na mente desde sempre. Mas o espaço foi tomado e está sendo conquistado de novo, de conhecimento a conhecimento. Eu consigo citar obras recentes incríveis como a 4:44, ou Damn, Lemonade, Heresia, Xenia, que ainda são vistos e consumidos como produções urbanas, mas que são ainda melhores que os melhores do ano.


O manifesto do gueto existe e resiste, e devemos ser gratos a nós mesmos. Porque o sistema já favorece o trabalho deles. Não devemos solidariedade pra ninguém que já possui o apoio e já atinge naturalmente as grandes massas,e ainda assim consegue lançar música ruim. Eu fortaleço corres reais, de caras e manas que veem o rap como a válvula de escape pra uma realidade paralela, que precisam de um emprego mais que ninguém, e de serem recompensados pelos seus trabalhos dentro da cena, e ainda são super atrasados por gente aproveitadora e por empresa com dinheiro que acha que não deve pagar preto, como sempre.

Então se você ficou ofendido com a minha declaração, significa que você precisa ler esse texto mais umas três vezes. Boa sorte.


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